Notícia

A comida como um foco de resistência da herança negra no Brasil

Mais do que pratos ou ingredientes, o próprio modo de preparar o alimento tem uma dinâmica e regras próprias nas comunidades tradicionais africanas

Wikimedia Commons

Fonte

UFRGS - Jornal da Universidade

Data

sexta-feira, 19 novembro 2021 11:10

Áreas

Nutrição Coletividades. Segurança Alimentar

“A comida para as comunidades tradicionais africanas é vista de maneira muito particular porque transcende a noção física do alimento. Mais do que fonte de sobrevivência, o alimento é o meio pelo qual essas comunidades fazem a experiência do seu sagrado.” É dessa forma que o babalorixá do Ilê Oba L´Okê, antropólogo e professor  Dr. Vilson Caetano de Sousa Júnior da Universidade Federal da Bahia (UFBA)  define o alimento na visão dos povos de matriz africana. Além de meros nutrientes e de combustível para o corpo físico, para essas comunidades o alimento é uma espécie de presente do sagrado que – mesmo com modificações, apagamentos e estereótipos – segue resistindo.

A centralidade e a importância da alimentação para o povo preto também são destacadas por Joseane dos Santos pedagoga e mestranda em Desenvolvimento Rural pela UFRGS . Joseane contou que os povos trouxeram da África sementes de plantas nativas nas tranças e nas roupas – e, na família dela, a profunda relação com a comida vem de muito tempo. A pesquisadora, que também é representante do quilombo Chácara da Cruz, de Tapes, relata que a tataravó já no navio negreiro foi ama de leite para uma criança, atividade que seguiu exercendo depois da chegada ao Brasil.

“A mulher negra tem uma parte importante na economia brasileira, porque depois da escravidão as sinhás não sabiam cozinhar, e as mulheres negras seguiram nessa atividade”, explica, acrescentando que os chamados “quitutes” representaram e ainda representam uma importante fonte de renda e manutenção. “O nosso quilombo, por exemplo, teve as terras compradas e os impostos pagos por meio da culinária feita pelas mulheres”, exemplifica.

Toda comida é sagrada

Apesar de definir a comida como uma representação do sagrado, o Dr. Vilson deixa claro que a diferenciação entre o sacralizado e o não sacralizado é uma “herança” da colonização, pois a experiência originária dos povos africanos diz que tudo – a religião, a cultura, os aspectos econômicos, sociais e políticos – é sagrado. “A experiência da diáspora fez com que a gente tentasse recompor o sagrado e, de fato, a gente precisa disso para manter ou reconstruir essas identidades fragmentadas”, afirma o pesquisador.

Mais do que pratos ou ingredientes, o próprio modo de preparar o alimento tem uma dinâmica e regras próprias nas comunidades tradicionais africanas. Tudo muda: o ritual, a maneira demorada e o cuidado com que se lida com determinado ingrediente. Não é só preparar um prato ou utilizar certo ingrediente: “Você também precisa ter as palavras mágicas, de encantamento, palavras que despertam na comida aquele princípio mágico que faz com que tenha força e cumpra a sua função”, afirma o Dr. Vilson. São fórmulas, conteúdos, perpetuação de utensílios e maneiras de servir o alimento passadas de geração para geração.

Joseane contou que, quando escuta experiências de representantes de quilombos de outras regiões do país, se espanta com as semelhanças nos modos de preparo e nos ensinamentos que são passados por meio da alimentação. Um dos elementos centrais nesse campo para os povos de matriz africana é o respeito pelo que a natureza fornece. “A criação do animal que será abatido é diferente; o respeito durante o abate é diferente. Não é apenas um abate, é o respeito por aquele animal fazer parte da nossa sobrevivência”, exemplifica. Ela diz que o uso do que a natureza dá em abundância, sem desperdícios, é outro elemento fundamental – se em Goiás as comunidades quilombolas usam muito alho-poró, no Rio Grande do Sul é o mestruço (erva também conhecida como mastruz), por exemplo.

Não à toa, a cozinha é o cômodo principal do lar.

Culinária como lugar de afeto e fonte de renda

A revisão da historiografia que tem acontecido nas últimas décadas, com a popularização do conceito de racismo estrutural e a análise crítica sobre o papel das instituições na sua perpetuação, tem incentivado iniciativas particulares de resistência. A Chermoula Cultura Culinária é um dos ambientes de resistência que tem feito sucesso no país. Sua idealizadora, Aline – que acabou incorporando o título do negócio em seu próprio nome – Chermoula cresceu em São Paulo, mas não perdeu as ligações com a Bahia, onde nasceu e de onde vem sua família.

Cozinhando desde pequena, Aline chegou a trabalhar em diversos lugares na capital paulista, como bares, restaurantes e buffets. “Tudo trata de comida, mas de uma forma diferente. Isso, mais as pesquisas que eu comecei a fazer, foram me mostrando que o meu lugar em meio a essa gastronomia que eu trabalhava estava meio deslocado. Eu fazia tudo aquilo, eu sabia fazer tudo aquilo, mas não tinha muita identidade”, afirma.

A Chermoula Cultura Culinária atua também nas redes sociais com a divulgação da cozinha afro-diaspórica em seus canais do YouTube e Instagram. Aline até classifica hoje sua atuação como ativista, mas conta que não era essa sua intenção inicial. “A gente pode chamar isso de ativismo? Sim, porque é uma reivindicação de um reconhecimento. Mas eu confesso pra você que num primeiro momento não foi com esse objetivo de ser reconhecida e, sim, de fazer a denúncia, de falar. Alguém tem que falar sobre isso, então eu vou falar.”

Por três anos, a chef chegou a estudar História na USP, mas depois viu que sua casa era a culinária. Mesmo assim, o interesse pela pesquisa e pelo conhecimento ancestral não a abandonaram. Com a primeira gravidez, a rotina de trabalho precisou ser transformada e um empreendimento que representasse a sua cultura surgiu como um imperativo. “Eu já estudava e trabalhava, há mais de sete anos, com a cozinha das américas e queria mostrar a minha identidade ancestral africana nesse trabalho”, destaca.

As semelhanças no preparo da comida mencionadas por Joseane se estendem, segundo Aline, por toda a América. A chef destaca que existe uma “espinha dorsal” na culinária de localidades que receberam povos africanos escravizados. Um desses exemplos emblemáticos são os pratos com misturas de alimentos cozidos. No Brasil, essas manifestações estão na moqueca, na feijoada, no feijão tropeiro e no cuscuz. Já no sul dos Estados Unidos, no gumbo e no jambalaya. “A gente percebe uma semelhança, são sempre pratos em que todos os elementos são cozidos juntos e montados juntos pra comer”, afirma. Um bolinho frito é outro exemplo. No Brasil, é o bolinho de chuva. “Ele está aqui, também está nos Estados Unidos, na Colômbia, no Peru, em Angola… Então a gente percebe uma semelhança entre alguns pratos e sua forma de preparo que remete a essa ancestralidade africana.”

Aline destaca a boa recepção que seus pratos têm tido. Um dos aspectos que ela acredita estar envolvido nessa receptividade é o fato de serem alimentos tão familiares e que despertam afeto nas pessoas. O próprio bolinho de chuva é um exemplo. “Chega no final do evento, todo mundo já comeu. Você frita uns bolinhos, e o pessoal enlouquece”, brinca.

Acesse a notícia completa na página da UFRGS.

Fonte: Mírian Barradas e Guilherme Freling, UFRGS – Jornal da Universidade.  Imagem: Wikimedia Commons.

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