Notícia

Mortes por desnutrição caem, mas óbitos associados à obesidade crescem no Brasil em 30 anos

Estudo da Escola de Enfermagem mostra que deficiências nutricionais e IMC elevado são problemas de saúde pública prevalentes em populações de baixa renda

Freepik

Fonte

UFMG | Universidade Federal de Minas Gerais

Data

quarta-feira, 20 março 2024 19:55

Áreas

Ciência e Tecnologia de Alimentos. Nutrição Clínica. Nutrição Coletividades. Saúde Pública

Uma boa e uma má notícia emergem de estudo da Escola de Enfermagem da UFMG que aborda os efeitos fatais das condições ruins de nutrição no Brasil nos últimos 30 anos: enquanto o número de mortes por desnutrição caiu, o de óbitos associados à obesidade aumentou.

Coordenado pela professora Dra. Deborah Carvalho Malta, do Departamento de Enfermagem Materno-infantil e Saúde Pública da UFMG, o estudo analisou o impacto de dois fatores: as deficiências nutricionais e o índice de massa corporal (IMC) elevado nos 27 estados do Brasil. A pesquisa, que compreende o período de 1990 a 2019, valeu-se de dados estimados pelo estudo Carga global de doenças com métricas: número absoluto de mortes, taxa de mortalidade padronizada e anos de vida ajustados por incapacidade. Além disso, verificou-se a correlação entre a variação percentual das taxas de mortalidade e o índice sociodemográfico (SDI).

“Durante muito tempo, a desnutrição e o IMC foram vistos como problemas de saúde pública distintos que afetavam grupos populacionais diferentes. No entanto, a ocorrência conjunta desses dois tipos de má nutrição está aumentando. Esse aparente paradoxo é resultado de profundas mudanças sociais e desigualdades. Tanto a desnutrição quanto o IMC elevado tendem a prevalecer em populações de baixo nível socioeconômico”, esclareceu a Dra. Deborah Malta

De acordo com a professora, os resultados revelam diminuição no número de mortes (75%), na taxa de mortalidade (75,1%) e nos anos de vida ajustados por incapacidade (72%) atribuível a deficiências nutricionais verificadas em todas as regiões do Brasil. As principais vítimas são crianças com menos de cinco anos e idosos acima de 60 anos.

O trabalho ressalta uma distinção entre o número de óbitos absoluto e a taxa de mortalidade. Esse índice é resultado do cálculo do número de mortes dividido pela população. É um indicador mais preciso, segundo a professora Deborah Malta, porque leva em consideração o aumento da população. A queda nas taxas de mortalidade indica que o número de óbitos subiu em proporção menor do que o crescimento populacional.

Outra variável considerada na pesquisa – anos de vida ajustados por incapacidade – diz respeito ao tempo que a pessoa perde em sua vida produtiva em razão, por exemplo, de doenças e internações. No caso do estudo da Escola de Enfermagem, a incapacidade é associada aos efeitos da desnutrição ou da obesidade.

Quanto ao IMC elevado, constatou-se aumento no número absoluto de óbitos (139,6%). No entanto, a taxa de mortalidade (9,7%) e os anos de vida ajustados por incapacidade (6,4%) diminuíram em todas as regiões, exceto no Norte e Nordeste do país, que registraram aumento. Em Minas Gerais, houve queda de 21,1% nas taxas de mortalidade devido ao IMC elevado, porém, o número de mortos saltou de 7.763, em 1990, para 16.661 pessoas, em 2019 (crescimento de 114,6%)

O papel dos alimentos ultraprocessados

O estudo constatou, ainda, que as tendências gerais da dupla carga de má nutrição (subnutrição e IMC elevado) podem ser atribuídas principalmente a transições rápidas nas dietas em todo o mundo. “Alimentos ultraprocessados possibilitam uma vida útil mais longa e melhor palatabilidade, porém têm alto valor calórico e são pobres em nutrientes. Devido ao seu baixo custo, tornaram-se altamente consumidos, especialmente pelas populações pobres. Além disso, houve diminuição do consumo de alimentos frescos, incluindo frutas e vegetais, que normalmente têm baixos teores de caloria, mas são ricos em micronutrientes e em fibras. Novos hábitos resultaram em aumento na prevalência da obesidade, fenômeno que ocorre tanto no Brasil quanto no resto do mundo”, enfatiza.

A desnutrição surge da insuficiência alimentar ou da deficiência de absorção de um ou mais nutrientes, como iodo, vitamina A e ferro. Essas deficiências estão relacionadas ao aumento da morbidade e mortalidade, constituindo a quinta causa de morte e deficiência em crianças menores de cinco anos. Em termos absolutos, o número de óbitos no Brasil caiu de 142.367, em 1990, para 35.660, em 2019.

Por outro lado, o sobrepeso e a obesidade, caracterizados por acúmulo excessivo de gordura no corpo, resulta de complexo processo adaptativo do sistema no balanço energético, em que características biológicas, padrões de atividade física e de consumo alimentar, aspectos psicológicos, ambiente físico e alimentar e fatores sociais e influências comerciais moldam comportamentos e práticas de estilo de vida. No Brasil, os óbitos por excesso de peso e obesidade aumentaram de 74.266, em 1990, para 177.940, em 2019.

A obesidade e o sobrepeso têm crescido em ritmo preocupante e já alcançam 26% e 60% da população adulta brasileira, respectivamente. Estimativas globais indicam que cerca de 2,3 bilhões de crianças e adultos têm excesso de peso, e mais de 150 milhões de crianças sofrem de desnutrição.

Acesse a notícia completa na página da UFMG.

Fonte: Escola de Enfermagem da UFMG. Imagem: Freepik.

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