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Diversidade da agropecuária e da alimentação pode ser a chave para superar a fome
A fome zero e a agricultura sustentável – Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) – se relaciona diretamente com a superação da chamada “monotonia agroalimentar”. Especialistas chamam a atenção para a importância da pauta e sua inclusão na presidência brasileira do G20.
O Dr. Ricardo Abramovay, professor da Cátedra Josué de Castro – dedicada à produção de conhecimento sobre sistemas alimentares -, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, explica que é preciso pensar não apenas nos fins, mas também nos meios a serem atingidos. “Para superar a fome é preciso mudar o sistema instalado. E essa mudança tem como vetor fundamental a diversidade e a luta pela diversificação tanto da agropecuária como da alimentação”, refletiu o Dr. Abramovay.
Sistema agroalimentar atual
O professor ressaltou o efeito da agropecuária no meio ambiente, na medida em que, globalmente, corresponde a cerca de um terço das emissões de gases do efeito estufa e supera até mesmo as emissões pelo sistema de transporte. Além disso, apesar de existirem outros fatores, a produção agropecuária representa o maior vetor de destruição de biodiversidade no mundo, por meio de técnicas que homogeneízam as paisagens e as criações animais.
“Grandes campos de soja, trigo, arroz foram muito importantes desde os anos 60 para aumentar a oferta agropecuária e para reduzir a fome, mas isso trouxe consequências muito graves para o meio ambiente e para as pessoas”, afirmou o Dr. Abramovay. Para os ambientes, o principal impacto tem a ver com a maior insegurança causada pelos problemas climáticos, cada vez mais frequentes, que podem ocasionar a perda de safras. De acordo com a ONU, cerca de 2 bilhões de pessoas foram afetadas pelas secas nos últimos 20 anos, por exemplo.
Outro aspecto que também se homogeneizou, segundo o professor, abarca a produção de animais, sobretudo, frangos e suínos, que são submetidos a grandes riscos de contaminação por vírus e bactérias. “Doenças derivadas de vírus e bactérias são tratadas, em larga escala, com antibióticos. Hoje, a resistência a esses medicamentos já se tornou um problema global de saúde pública extremamente sério considerado pelas Nações Unidas”, destacou o professor.
Mudança e o Brasil
Com tal padrão homogêneo problemático, uma vez que não condiz mais com as demandas do século 21, como a luta contra a crise climática, o Dr. Ricardo Abramovay considera uma necessária mudança de modelo em que o Brasil ocuparia lugar de destaque. “O regime de produção agroalimentar é fundamentado na monotonia não apenas produtiva, mas alimentar também, e a mudança deve perpassar ambas as áreas globalmente”, declarou o professor.
No que tange à dieta alimentar, o especialista explica que há uma mudança no perfil da alimentação, que antes era baseada em calorias. No cenário atual, as demandas que devem ser privilegiadas são as de qualidade nutricional, sustentabilidade da sua produção, resiliência climática e os impactos na luta pela equidade contra as desigualdades.
“O Brasil pode ter um papel muito importante nessa mudança. A Amazônia é a região do mundo que apresenta a maior biodiversidade, com um potencial extraordinário de oferta de novos produtos que podem contrabalançar essa monotonia atual”, apontou o Dr. Abramovay. Além disso, o professor ressalta a Embrapa no campo de pesquisa, que também pode contribuir muito para o avanço da área no País. A descentralização do sistema alimentar, até agora concentrado em poucas empresas, juntamente com os saberes e conhecimentos locais em destaque, é o primeiro passo para a transformação dessa monotonia.
Acesse a notícia na página do Jornal da USP.
Fonte: Jornal da USP.
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